Pesquisadores defendem reavaliação dos currículos de formação militar

Enquanto os militares defendem a formação acadêmica atual, pesquisadores refletem sobre a necessidade de uma reavaliação curricular para jovens que querem seguir a formação militar. Segundo o historiador Daniel Aarão Reis, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), a chave de tudo encontra-se na formação dos militares, a começar pelas Agulhas Negras e pelas demais escolas de formação de oficiais. Ele acredita que é preciso reformular os currículos militares, que ainda são condicionados, em grande medida, pela cultura da Guerra Fria e suas atualizações, como a guerra híbrida. “Enquanto isso não mudar, a república democrática não se consolida”, afirma.

O professor Heraldo Makrakis, pós-doutor em Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutor em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, também acredita que a reformulação da doutrina é essencial para redesenhar o papel que as Forças Armadas devem cumprir no Estado.

Com o objetivo de formar oficiais para a Força Aérea Brasileira (FAB), a Academia da Força Aérea (AFA) e a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR) oferecem formação para cadetes. Na EPCAR, jovens de todo o país podem se candidatar para se tornarem cadetes, passando por um processo seletivo que inclui prova escrita, inspeção de saúde, teste de aptidão psicológica e teste de avaliação do condicionamento físico. Já na AFA, o ingresso é feito mediante concurso público, que inclui provas escritas, inspeção de saúde, teste de aptidão psicológica e teste de avaliação do condicionamento físico.

A formação de cadete é uma etapa fundamental na carreira militar, pois é nela que os jovens aprendem as habilidades e competências necessárias para se tornarem oficiais. No entanto, é importante que os currículos militares sejam atualizados para atender às necessidades da sociedade atual e garantir que os militares estejam preparados para cumprir seu papel no Estado.

Sacrifícios da carreira

Como militares, sabemos que a carreira que escolhemos exige sacrifícios. Deixamos para trás nossas famílias, amigos e entes queridos para servir ao nosso país. O historiador Ricardo Cabral, que é militar da reserva do Exército, afirma que a fraternidade entre os militares surge a partir das adversidades e desafios que os companheiros de tropa enfrentam juntos. Isso torna a carreira militar uma espécie de sacrifício pessoal.

Quando decidimos entrar para as Forças Armadas, estamos cientes de que não é apenas nossa vida que será afetada, mas também a de nossos entes queridos. A farda que vestimos representa mais do que apenas um uniforme, ela simboliza nosso amor pela profissão e nossa valorização da família.

Durante nossa jornada, passamos por muitos momentos de sacrifício pessoal. Lidamos com a saudade de casa, as dificuldades físicas e emocionais, mas seguimos em frente, sabendo que estamos servindo a uma causa maior. Como disse o cadete Resende, “para se conquistar alguma coisa na vida, você tem que abdicar de algo.” E nós escolhemos abdicar de muito para servir ao nosso país com coragem e dedicação.

Adaptação ao ambiente militar

A adaptação ao ambiente militar pode ser um processo desafiador para os jovens cadetes. Como o Capitão Rafael de Almeida Leitão, comandante da tropa de cadetes do primeiro ano, que ingressou na instituição aos 17 anos de idade, muitos jovens precisam mudar completamente suas rotinas e comportamentos para se adaptarem à vida militar.

Durante a formação, os cadetes são expostos a situações que exigem disciplina e responsabilidade, como acampamentos e saltos de paraquedas. O objetivo é prepará-los para se tornarem pilotos de caça ou oficiais da Força Aérea Brasileira (FAB), e isso requer uma atitude militar e profissionalismo.

A formação dos cadetes é baseada em valores como patriotismo, coragem e amor à profissão, e é um processo que ocorre de forma natural ao longo dos quatro anos. Os cadetes são preparados para ter senso crítico e liderança, e a disciplina é mantida com o suporte de uma equipe de profissionais, incluindo psicólogos e pedagogos.

A convivência diuturna no quartel fortalece as amizades entre os cadetes, e eles são incentivados a valorizar a família e a manter uma postura responsável e corajosa em todas as situações.

Embora o ambiente de aquartelamento possa parecer isolado, a formação na academia é democrática e ajuda a tirar os cadetes de uma “bolha”, expondo-os a pessoas de diferentes partes do país e a valores que são fundamentais para o sucesso na vida militar.

No geral, a adaptação ao ambiente militar pode ser difícil, mas os valores e a disciplina aprendidos durante a formação são essenciais para a formação de jovens cidadãos e para o sucesso na vida militar.

Sonho de vestir a farda

Quando ingressamos nas Forças Armadas, muitas vezes é uma virada de chave em nossas vidas. É o caso da aspirante a oficial do Exército Jérsica da Silva Gonçalves, que aos 31 anos de idade realizou seu sonho de vestir a farda. Jérsica, que ingressou recentemente como oficial temporária, está em fase de formação e entende que a hierarquia e disciplina são pilares muito fortes dentro das Forças Armadas. No entanto, ela também acredita que a defesa de direitos humanos e da cidadania tem espaço no quartel.

Outra militar que encontrou sua vocação nas Forças Armadas é a tenente economista Vanda Maria Ferreira Neta. Vanda, que está há mais de sete anos no quartel, foi estimulada pela memória do avô, pracinha da 2ª Guerra Mundial, Abdias de Souza, que morreu aos 97 anos. Segundo Vanda, há desconhecimento de civis com a vida no quartel.

A adaptação para quem chega às Forças Armadas já na vida adulta pode ser exigente, mas muitos encontram nesse ambiente uma oportunidade de crescimento pessoal e profissional. Neste 7 de setembro, dia em que celebramos o patriotismo e a independência do Brasil, lembramos da importância das Forças Armadas para a nossa nação e para o futuro do país.

Envolvimento com a política

Os militares brasileiros têm uma longa história de envolvimento com a política, como destaca o cientista político Paulo Ribeiro da Cunha. Em vários momentos da história do país, os militares participaram ativamente da política, incluindo a abolição da escravatura, a defesa da República e o movimento tenentista. No entanto, a partidarização dos militares é criticada por Cunha, especialmente durante o governo de Jair Bolsonaro. Essa partidarização resultou em casos de corrupção que arranharam a imagem das Forças Armadas e diminuíram seu prestígio diante da sociedade brasileira.

Muitos militares sofreram perseguição por defender a democracia e se opor aos desmandos e excessos da ditadura militar instaurada pelo golpe de 1964, conforme documentado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV). Suzeley Kalil, professora da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), critica estereótipos ligados à função dos militares, como o fato de que o Estado teria transformado qualquer problema em algo da esfera da “defesa nacional”. As Forças Armadas são escaladas para solucionar problemas de políticas públicas, como distribuir caminhões-pipa para sanar desabastecimentos de água. Isso faz com que os militares passem a ser vistos como imprescindíveis, quando, na realidade, o adequado seria exigir de setor competente a proposta de políticas públicas específicas.

Outra crítica de Kalil é a sedução dos estados com as escolas civis que absorveram preceitos dos militares. Segundo a pesquisadora, isso faz com que os militares passem a ser vistos como encarnação de uma ética extremamente correta. O uso de cabelo curto, farda e uma roupa engomada não é sinônimo de bom comportamento, e a história mostra que não é bem assim.

Portanto, é importante que a formação dos militares seja reavaliada, como defendem alguns pesquisadores, para que os jovens que desejam seguir a carreira militar recebam uma formação mais crítica e reflexiva. Isso ajudará a formar militares mais conscientes de seu papel na sociedade e menos propensos a se envolver em casos de corrupção e partidarização política.

Perguntas Frequentes

Quais são os principais objetivos de uma carreira nas Forças Armadas?

Uma carreira nas Forças Armadas tem como principal objetivo servir ao país e proteger a nação. O militar deve estar preparado para atuar em diversas situações, desde conflitos armados até missões de paz e ajuda humanitária.

Como o conhecimento militar é aplicado em operações estratégicas?

O conhecimento militar é aplicado em operações estratégicas para garantir a segurança e a defesa do país. Os militares são treinados para planejar e executar missões complexas, utilizando táticas e estratégias de combate.

Qual posto representa o ápice da hierarquia militar brasileira?

O posto que representa o ápice da hierarquia militar brasileira é o de Marechal. Esse posto é concedido apenas em situações excepcionais, como reconhecimento por serviços prestados à nação.

Quem ocupa o cargo de comandante supremo das Forças Armadas no Brasil?

O cargo de comandante supremo das Forças Armadas no Brasil é ocupado pelo Presidente da República. Ele é o responsável por determinar a política de defesa nacional e por nomear os comandantes das Forças Armadas.

Como os currículos militares são desenvolvidos e quem os critica?

Os currículos militares são desenvolvidos por especialistas em educação e militares com experiência em campo. Eles são revisados periodicamente para garantir que estejam atualizados e de acordo com as necessidades do país. Os currículos são criticados por pesquisadores e especialistas em educação, que apontam a necessidade de uma reavaliação curricular.

Quais são as principais críticas feitas por pesquisadores ao currículo militar?

As principais críticas feitas por pesquisadores ao currículo militar são a falta de ênfase em habilidades sociais e emocionais, a excessiva valorização da disciplina e hierarquia, e a falta de flexibilidade curricular para atender às necessidades individuais dos alunos.

Sobre o Autor

Ubiratan Motta
Ubiratan Motta

Historiador que dedicou sua vida à carreira militar. Especialista em recursos humanos e logística, e com vasta experiência em operações e missões das Forças Armadas.

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